PROCURANDO EMPREGO: O LADO QUE NINGUÉM FALA

Acho interessante abordar um pouco o lado obscuro da imigração. Não pra jogar areia no sonho alheio, pelo contrário. Quando a gente decide imigrar, um clima de “já ganhou” toma conta da gente, um êxtase. É normal. A gente fecha os olhos pra possíveis obstáculos que teremos que superar, problemas que existem também aqui no chamado Primeiro Mundo. Então é legal lembrar aos que virão pra essa “Terra Prometida” que ela pode prometer também muitas surpresas e que é preciso descer da sua nuvenzinha.

Como o tema por aqui ainda é emploi, eu consegui anotar algumas coisas que ora me surpreenderam ora me fizeram parar pra refletir durante esses 4 meses em que meu trabalho foi procurar trabalho. Aliás, é hora de dizer também (pr’aqueles que ainda não sabem) que a minha batalha chegou ao fim e que eu ocupo um posto, feliz e cheio de desafios, desde o final de Agosto. Quem sabe um dia eu conto mais sobre meu trabalho. Mas, voltamos ao lado que ninguém fala…

Algo que eu percebi por aqui mas que fica só no âmbito da teoria quase-comprovada: seu nome e sobrenome vão fazer com que seu CV seja ou não levado em conta. Quero dizer que para algumas empresas, CV de imigrante não passa. Ainda mais se nele nota-se que você não tem ainda nenhuma experiência por aqui. Muitas empresas ainda não estão dispostas a contratar imigrantes. Isso eu ouvi de gente que trabalha na colocação de profissionais, numa feira de empregos/carreiras. Há um programa do Governo que trabalha pra melhorar essa condição mas ainda em passos lentos. Eu tenho certeza que a minha candidatura não foi aproveitada para algumas vagas que postulei por esse motivo. Talvez por fatores que devam ser levados em consideração, talvez não. Sim, eu estou falando de
preconceito, pra quem não acredita que aqui isso exista. E esse “filtro” com os árabes, por exemplo, é ainda maior. Acho que a essa altura do campeonato todo mundo já ouviu falar da bendita Charte des Valeurs Québécoises, não é?

Ninguém fala também das dificuldades práticas e psicológicas durante uma entrevista. Eu, que falo inglês há anos, tomei pau em 2 empresas no mínimo porque eu deixei a tensão dominar e ga-ga-ga-guejei demais. Ninguém fala que muitas empresas aqui exigem do candidato-imigrante um nível alto de proficiência em francês, mesmo que para um cargo raso, mas que a maioria dos funcionários nativos falam e escrevem um francês bem duvidoso. Ninguém fala que às vezes você chega lindão pra uma entrevista e o cara do outro lado da mesa te trata pior que o cocô do cavalo do bandido, quebrando suas pernas e te deixando desconfortável, como se o momento já não fosse desconfortável o suficiente. Nesse ponto acho que fui feliz pois tive mais entrevistas agradáveis que desagradáveis. Aliás, outra coisa que ninguém fala (essa ao menos é positiva) mas que aconteceu comigo: o fato de ser brasileiro me rendeu no mínimo umas 5 oportunidades. Não sei explicar o porquê mas é um bom sinal.

Hoje, depois de tudo, admito em voz alta: EU SUBESTIMEI AS DIFICULDADES PARA SE ARRUMAR O PRIMEIRO EMPREGO. Eu achava que por ter diploma em 2 áreas diferentes e longa experiência  noutra, que isso iria ser um facilitador, que eu ia poder jogar em todas e logo eu teria um empreguinho bom. Mas não é tão simples assim. Ou bem eu fazia uma coisa, ou bem eu fazia outra. Experiência conta muito. E ser capaz de persuadir seu interlocutor em francês e/ou inglês é mais difícil do que parece ser. E isso só vem com prática, e MUITA calma. É preciso foco e dedicação. E estar muito à vontade nos idiomas. Quando tomei consciência disso a coisa andou. Paguei o preço, por isso gosto de levantar a bola e fazer as pessoas pensarem nisso.

E claro, apegar-se a Deus ou seja la qual for a sua crença também ajuda muito, assim como o apoio da família.

Portanto, pra quem esta por vir, reflitam e preparem-se. Desejo sorte a todos, a mesma sorte e felicidade que venho tendo até aqui. Tem horas que é duro mas vale a pena!

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4 respostas para PROCURANDO EMPREGO: O LADO QUE NINGUÉM FALA

  1. Igor disse:

    Muito legal este post! Sempre gostei de ter um choque de realidade ainda mais quando se trata de imigração! Ficamos lendo tanta coisa positiva na internet sobre a imigração para o Canadá que esquecemos que ao chegar lá a coisa não é tão fácil assim!
    Parabéns e sorte no futuro sempre!

  2. Luciana disse:

    Que bom saber que vc já está trabalhando! Para quem está se planejando para ir é muito bom saber do seu relato, pois sempre temos a tendência de achar que com a gente vai ser fácil, etc e tal mas fazer entrevista em francês/inglês é bem mais difícil que aqui no Brasil.
    Boa sorte e sucesso!

  3. Amei o seu post, Thiago! Você soube analisar a situação e expressar de maneira crítica e bastante sóbria tudo o que você passou, muito bom mesmo o seu relato! Tenho certeza de que a sua experiência vai servir para muita gente, pois você tocou no ponto-chave: o fato de que você subestimou a dificuldade em arranjar o primeiro emprego! Tem muita gente que chega aqui esperando a terra que mana leite e mel e a gente sabe que esse lugar não existe na terra… E quando a pessoa se toca que a perfeição não existe e vai ter que ralar o mundo desaba!

    Muitos parabéns pelo seu emprego, espero que você tenha tempo e disposição para escrever um pouquinho sobre o mercado de trabalho daqui com essa mesma capacidade de análise crítica. Ainda vai levar um tempinho para eu encarar o mercado, então quanto mais eu ler e me preparar, melhor para mim! 😉

    Abraços,
    Lidia.

  4. gabi disse:

    aqui ha 2 tipos de empregadores = aqueles nao gostam muito daquelas pessoas *bombril*, que fazem 1001 coisas e aqueles que ja preferem justamente o *bombril*. O duro é saber QUAL é QUAL, adaptar o CV para cada vaga (sim, isso nao é falsificar o CV, mas apenas valorizar pontos importantes segundo o cargo pretendido).

    Hoje ja aprendi, ja fiz entrevista por telefone (e consegui o job), ja fiz entrevista com uma mesa de examinadores (e consegui o job) e ja passei em entrevista individual com a diretora de um CSSS e nao consegui o job por justamente nao saber *os rumos e perspectivas* daquele futuro empregador especifico. Nao adianta so aplicar e mandar 500 CVs. Cada um deve ser especifico ao cargo, e chegando na entrevista o candidato deve conhecer além do superficial da empresa (nao precisa saber o numero exato de funcionarios, mas saber missao, valores e aôes planejadas é sempre um ponto positivo) ….

    Enfim, a caçada pelo emprego depende de N fatores… habilidade em comunicaçao, desinibiçao perante desconhecidos (fazer entrevista com 5 examinadores é uma verdadeira prova de fogo), *conhecimento de causa*, saber SE vender …. todo o bla-bla-bla de qualquer manual. Com o diferencial de que aqui vc tem que provar pq a empresa te contrataria e nao um Tremblay qualquer.

    (felizmente na enfermagem a carência de profissionais ainda permite ao imigrante nao ter o *fantasma Tremblay* ameaçando seus planos ….)

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